Lisboa ao Algarve num Renault 4L: crónica de uma estrada

Houve qualquer coisa de teimosamente analógica naquele sábado de manhã cedo. O sol ainda mal se levantava sobre os telhados da Graça quando rodei a chave do contacto e o pequeno motor do meu Renault 4L tossiu, hesitou, e acabou por pegar. Ia fazer o que muita gente considera uma loucura: atravessar Portugal de lés a lés, de Lisboa até ao Algarve, num carro com mais anos do que a maioria dos condutores que encontraria pelo caminho.

Havia uma promessa escondida naquela decisão — a de que uma viagem destas não se mede em quilómetros nem em velocidade, mas em paciência, curiosidade, e nas histórias que o carro vai contando pelo caminho. O 4L não tem travagem assistida, não tem direção hidráulica, e quase não tem isolamento acústico. Em troca, oferece uma honestidade mecânica que os automóveis modernos já perderam.

A preparação do quatro-L

Três semanas antes da partida, passei os fins de semana debaixo do carro, na travessa de asfalto onde o guardo. Revisei os travões, substituí as mangueiras do radiador que ameaçavam ceder ao calor, e recuperei o sistema de iluminação, que estava mais para uma sugestão do que para uma obrigação legal. Um carro com cinquenta anos não perdoa desleixo, e o Algarve em agosto não perdoa um motor sobreaquecido.

Os pneus foram outra decisão caseira: os originais já mostravam os veios e resistiam mal às curvas do Sotavento, pelo que optei por uns clássicos novos de fábrica, com o perfil da época. Aproveitei para calçar um silenciador novo, mais por cortesia para com as aldeias que atravessa do que por exigência técnica — o motor do 4L tem um som que, depois de quatro horas, começa a instalar-se dentro do condutor.

A bagageira levou pouca tralha, mas tudo o que importava:

A partida da cidade

Saí pelas seis da manhã, ainda com o asfalto molhado da rega nocturna que Lisboa mantém em certas zonas antigas. A travessia da Ponte 25 de Abril, àquela hora, é um espectáculo quase privado — o Tejo parece um espelho escuro recortado pela iluminação dos navios e pela passagem dos comboios que entram na margem sul. O motor respondia com aquele ronronar ritmado que só os pequenos blocos laterais da Renault sabem oferecer.

Pouco depois de Almada, o trânsito rareia e o mundo muda de textura. As autoestradas modernas retiram ao automobilista qualquer surpresa; numa estrada nacional, o R4 mostra os seus talentos escondidos. Cada lomba é negociada com prudência, cada curva é vivida com a precisão mecânica que existia antes de haver sistemas electrónicos de correcção. Esta viagem fez-me pensar em filmes-teoricos — aqueles que meditam sobre a estrada, sobre a lentidão recompensada, sobre o que ganha um viajante quando aceita depender inteiramente do carro e de si próprio.

A planície alentejana

A partir de Grândola, o horizonte alarga-se e o silêncio dentro do habitáculo passa a ser habitado apenas pelo vento e pelo motor. Aqui, o 4L atinge o seu terreno ideal: retas longas, calor seco, curvas suaves que permitem ao chassis suspender-se com a compostura que a suspensão independente sempre garantiu. É uma sensação estranha e reconfortante, conduzir um carro que muitos deram por perdido e que continua a circular com uma vitalidade que envergonha certas máquinas supostamente modernizadas.

No Alentejo, parei em cafés de aldeia para encher o depósito e esticar as pernas, e em cada paragem havia sempre alguém que se aproximava com uma história. Um senhor em Alcácer do Sal contou-me que o pai tinha um 4L verde, da mesma cor do meu, com o qual levava a família até à praia da Adiça nos anos setenta. Em Ermidas, um rapaz novo quis saber se aquilo ainda andava bem e ficou espantado quando lhe disse que a velocidade de cruzeiro rondava os noventa quilómetros sem queixar-se.

A descida para o Algarve

Optei por entrar por Silves, descendo pela EN 124 que acompanha o Arade e que, no fim de uma tarde quente, parece desenhada a descobrir cada solavanco da suspensão. O 4L queixou-se um pouco, reconheço — a subida tinha exigido mais do motor do que seria prudente — mas recompensou-me com uma das descidas mais bonitas daquele itinerário.

Quando os primeiros painéis luminosos de Algoz surgiram ao fundo da estrada, senti qualquer coisa que não é propriamente contentamento nem nostalgia: é um reconhecimento. O carro tinha cumprido, sem drama e sem queixas, aquilo a que se tinha proposto. Pensei nas oficinas que visitara, nos conselhos que recolhi em fóruns, e lembrei-me de uma conversa tida semanas antes sobre uma conversão single turbo num FD3S, onde o brilho electrónico substitui por vezes a paciência que o R4 ainda exige. São filosofias opostas, mas ambas legítimas.

Os pequenos contratempos da estrada

Uma viagem destas tem os seus rituais, e eu não me livro de os enumerar com a minúcia de quem aprende com o próprio carro. Entre Ourique e Castro Verde, o motor começou a falhar levemente — solucionei com a afinação de um parafuso do carburador, à beira da estrada, debaixo de um sobreiro que fornecia a sombra necessária. Mais tarde, algures em Odemira, partiu-se o cabo do conta-quilómetros, e fiquei a calcular a velocidade pelo som do motor durante trinta quilómetros, como se tivesse voltado aos tempos em que os painéis dos carros eram apenas sugestão.

Nada disto foi grave nem inesperado. O R4 é um carro que avisa antes de falhar, e que se repara com ferramentas básicas. Em cada paragem técnica, convivi com a curiosa simpatia dos transeuntes — camionistas, ciclistas, reformados que passavam a pé — e saí de cada uma delas com a sensação de que o carro continua a ser, neste país, uma espécie de património comum reconhecido de longe.

Os imprevistos registados foram estes:

O que aprendi ao volante

Uma viagem de Lisboa ao Algarve, mesmo que pareça curta no papel, é suficiente para revelar o carácter de um carro e, por arrasto, o carácter de quem o conduz. Percebi que a paciência é, efectivamente, uma forma de luxo: o R4 obriga a negociar com cada elemento, a planear cada ultrapassagem, a prever cada curva. É um exercício de atenção ao presente que quase se pode chamar de meditação prática.

Aprendi também que o Algarve não é apenas o seu turismo de massas, e que o caminho para lá chegar preserva paisagens que o destino geralmente esconde. Houve horas em que conduzi entre sobreiros e azinheiras sem ver uma única viatura, e em que o único ruído, além do motor, era o canto das cigarras.

O regresso, depois, e o carro como diário

Voltei três dias depois, já com o tanque cheio de impressões e os óculos de sol cheios de sal marinho. O regresso foi feito pelo mesmo itinerário, mas parecia diferente — como se a estrada tivesse envelhecido uns dias em vez de horas. O 4L voltou para a sua travessa em Lisboa com mais uma história para contar, e eu fiquei com a sensação de que algumas viagens só fazem sentido quando feitas devagar, num carro que ainda pede desculpa por cada solavanco.

Esta crónica, afinal, é uma forma de agradecer ao pequeno Renault que me levou e me trouxe sem pedir nada em troca a não ser um pouco de atenção. Se tiveres um clássico parado na garagem, verifica os travões, enche o depósito, e parte. A estrada portuguesa continua à espera de quem a percorra com tempo e sem pressa — quiçá acompanhado de um saco de bolachas e de um amigo com boa disposição.